CLC Fabiana Durant: Do navio à representação internacional

por CCMM

Quando Fabiana Vila Nova Durant da Silva começou sua vida profissional no mar, em 2002, a presença feminina na Marinha Mercante brasileira ainda carregava o peso de ser novidade. Mais de duas décadas depois, já Capitão de Longo Curso, sua trajetória a levaria dos navios-tanque às operações portuárias e à representação brasileira em uma iniciativa da Organização Marítima Internacional.

É uma carreira que também ajuda a entender como mudou o próprio profissional da Marinha Mercante.

Fabiana formou-se em Ciências Náuticas pelo Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, o CIABA, em Belém.

Depois veio aquilo que nenhuma escola consegue reproduzir completamente: o mar.

Foram 13 anos embarcada, entre 2002 e 2014, trabalhando como Oficial de Náutica em navios-tanque químicos, petroleiros e gaseiros.

Treze anos de bordo parecem apenas um número quando colocados em um currículo. Na vida real, significam períodos sucessivos longe de casa, quartos de serviço, manobras, portos, carregamentos, descarregamentos, noites interrompidas e uma convivência muito particular com pessoas que passam semanas dividindo o mesmo pequeno mundo.

O navio não fecha no fim do expediente.

Ele continua navegando.

Foi nesse ambiente que Fabiana construiu sua experiência e avançou profissionalmente até alcançar a categoria de Capitão de Longo Curso, o mais elevado nível da carreira de Náutica da Marinha Mercante brasileira.

Mas sua história não terminou quando deixou a rotina embarcada.

Fabiana levou para terra aquilo que havia aprendido no mar e passou a atuar na área portuária, chegando à gerência de operações ship-to-ship do Porto Sudeste do Brasil.

É um detalhe interessante porque mostra uma parte da Marinha Mercante que muitas vezes permanece escondida.

Nem toda carreira marítima termina no passadiço.

A experiência adquirida a bordo alimenta uma enorme estrutura em terra: portos, terminais, operações, segurança, logística, treinamento, meio ambiente, gestão e inúmeras atividades que dependem justamente de profissionais capazes de compreender o navio por dentro.

Fabiana ampliou também sua formação. Acrescentou ao conhecimento náutico especializações em Gestão de Pessoas, Segurança do Trabalho e Gestão Ambiental, Gestão Estratégica em Petróleo, Gás e Energias Renováveis e Gestão de Crises Corporativas. Em 2024, quando sua trajetória foi apresentada pela Marinha do Brasil, cursava também Engenharia de Produção.

É quase um retrato da transformação da própria profissão.

O oficial continua precisando entender de navegação, segurança e operação. Mas o mundo marítimo moderno passou a exigir conhecimento ambiental, capacidade de gestão, domínio de riscos, tecnologia, relacionamento humano e compreensão de uma cadeia logística muito maior do que o próprio navio.

Com o tempo, outra atividade começou a fazer parte de sua trajetória: conversar com quem estava chegando.

Em 2021, Fabiana voltou ao ambiente da formação mercante para falar às alunas da EFOMM no CIAGA. Falou sobre sua carreira, as competências necessárias à profissão e as oportunidades existentes no setor.

Pode parecer apenas uma palestra.

Para uma jovem que pensa em seguir a vida no mar, não é.

As primeiras brasileiras que entraram na EFOMM no final da década de 1990 praticamente não tinham mulheres à sua frente para perguntar como seria aquela vida.

Duas décadas depois, uma aluna podia sentar diante de uma CLC com 13 anos de experiência embarcada e perguntar o que realmente significava escolher aquela profissão.

Em março de 2024, essa experiência ganhou uma dimensão maior.

Fabiana foi nomeada Embaixadora Marítima da Boa Vontade da Organização Marítima Internacional, a IMO, para o biênio 2024–2025. Sucedia justamente outra brasileira e também Capitão de Longo Curso: Hildelene Lobato Bahia.

O título pode soar protocolar, mas a missão tem um objetivo bastante concreto: aproximar jovens das profissões marítimas, mostrar oportunidades de carreira e tornar mais conhecido um setor do qual praticamente todo o mundo depende.

Falamos muito de navios, portos, contêineres, petróleo, motores, fretes e comércio exterior.

Falamos menos das pessoas.

E nenhum navio deixa o porto sozinho.

Quando assumiu a missão junto à IMO, Fabiana acumulava 22 anos de carreira: 13 embarcada e nove anos de atuação na área portuária.

Há alguma coisa de circular nessa trajetória.

Uma jovem entra no CIABA para aprender a ser oficial. Passa mais de uma década navegando, alcança a categoria mais alta da carreira de Náutica, leva sua experiência para as operações em terra e, depois, passa a conversar com jovens sobre a possibilidade de eles próprios escolherem uma profissão ligada ao mar.

Fabiana saiu do navio.

Mas nunca saiu verdadeiramente da Marinha Mercante.

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