Comodoro CLC Francisco Cesar Monteiro Gondar: Uma vida dedicada ao mar

por CCMM

Há homens para quem o mar representa uma profissão. Para Francisco Cesar Monteiro Gondar, ele acabou se tornando também memória, música, história e uma forma de preservar a identidade da própria Marinha Mercante brasileira.

Gondar pertence a uma geração de comandantes cuja experiência foi construída durante décadas de navegação. Capitão de Longo Curso, chegou também à condição de Comodoro da Marinha Mercante, distinção reservada a comandantes de grande senioridade e experiência profissional. A própria Diretoria de Portos e Costas registra Gondar entre os Comodoros homenageados pela Marinha do Brasil em reconhecimento aos serviços prestados à Marinha Mercante e ao País.

Ser Comodoro, nesse caso, não significa simplesmente ostentar um título honorífico. As normas exigem, entre outros requisitos, pelo menos dez anos como Capitão de Longo Curso e um mínimo de cinco anos de comando no mar em navios de grande porte, além de formação complementar e histórico profissional compatível.

É uma distinção que diz bastante sobre a dimensão de sua vida profissional.

Mas Gondar construiu outra história paralela àquela vivida nos passadiços.

Ao longo dos anos, transformou a experiência marítima em trabalho de preservação da memória da profissão. Participou de encontros, palestras e iniciativas dedicadas à história dos navios e dos marítimos brasileiros. Em 2015, por exemplo, foi responsável por uma apresentação sobre a participação da Marinha Mercante brasileira na Primeira Guerra Mundial durante a mostra “Navios que fizeram História”.

Esse interesse pela memória ajuda a explicar uma das partes mais conhecidas de sua trajetória.

Gondar é o autor da música do Hino da Marinha Mercante Brasileira. A letra é do CLC Álvaro José de Almeida Júnior e o arranjo e a regência ficaram a cargo do maestro Sirley Ferrari. A autoria é registrada oficialmente pela Diretoria de Portos e Costas e pelo CIAGA.

Para quem passou uma vida navegando, talvez poucas coisas sejam tão particulares quanto transformar em música a profissão à qual pertenceu.

Não foi sua única composição relacionada ao mar.

Gondar é também autor da letra e da música da canção “Combatentes da Marinha na Segunda Guerra Mundial”, executada em cerimônias oficiais em homenagem aos brasileiros mortos nos conflitos. Em uma dessas solenidades, no Rio de Janeiro, a composição foi interpretada pelo coral do Comando do 1º Distrito Naval diante de representantes das Marinhas do Brasil e Mercante.

Existe aí uma ligação pouco comum.

O comandante que navegou durante décadas tornou-se também alguém preocupado em impedir que histórias anteriores à sua própria geração desaparecessem.

Em 2016, sua trajetória ganhou uma dimensão internacional. Durante as comemorações brasileiras do Dia Marítimo Mundial, Gondar recebeu o título de Embaixador Marítimo da Organização Marítima Internacional — IMO. A função é destinada a profissionais capazes de compartilhar conhecimento e experiência e, principalmente, aproximar novas gerações das atividades marítimas.

Era uma missão bastante coerente com aquilo que já fazia.

Quem passou boa parte da vida dentro de navios sabe que a Marinha Mercante possui uma memória que dificilmente aparece nos livros escolares. São histórias transmitidas entre comandantes, oficiais e tripulantes; nomes de navios que desapareceram; travessias que poucos recordam; acidentes evitados; tempestades; guerras; portos que mudaram completamente e tecnologias que um jovem oficial de hoje talvez jamais tenha utilizado.

Gondar tornou-se um dos homens que carregam parte dessa memória.

Em 2024, recebeu outra homenagem: a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou a concessão da Medalha de Mérito Pedro Ernesto ao Capitão de Longo Curso e Comodoro da Marinha Mercante. No mesmo ano, foi promovido ao grau de Comendador no Quadro Suplementar da Ordem do Mérito Naval.

E sua história continua contemporânea. Em 2026, uma proposição da Câmara Municipal de São Gonçalo registrou mais de quatro décadas de serviços prestados por Francisco Cesar Monteiro Gondar ao setor marítimo nacional.

Talvez seja justamente isso que faça dele uma personalidade interessante para além dos títulos recebidos.

O comandante navegou.

O Comodoro acumulou experiência.

Mas o homem que veio depois resolveu também contar, ensinar, compor e preservar.

Navios são retirados de serviço. Companhias desaparecem. Tecnologias ficam obsoletas e gerações inteiras deixam os passadiços.

A memória, se ninguém cuidar dela, também desembarca.

Gondar decidiu permanecer a bordo.

imagem: https://turismall.com.br/palestrante/comodoro-francisco-cesar-monteiro-gondar/

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