CLC Hildelene Lobato Bahia: O comando que abriu caminho

por CCMM

Há carreiras que avançam degrau por degrau. Em algumas, porém, cada degrau alcançado muda também o caminho de quem vem depois. Foi assim com Hildelene Lobato Bahia, paraense que entrou para a Marinha Mercante quase por acaso e acabou ocupando um lugar onde nenhuma brasileira havia chegado antes: o comando de um navio mercante.

A história começou em 1997. Hildelene já era formada em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Pará quando resolveu prestar o concurso para a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante. Segundo seu próprio relato, a ideia inicial era acompanhar e incentivar o irmão, que também faria a prova. Ela acabou aprovada.

O momento não poderia ser mais particular. Naquele ano, o Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, o CIABA, em Belém, recebia sua primeira turma com mulheres na EFOMM. Eram apenas 14 em um universo profissional que, até então, havia sido essencialmente masculino.

Hildelene estava entre elas.

A novidade, entretanto, terminava quando começava o trabalho. No navio não existiria uma carreira alternativa para as mulheres. Para chegar ao comando seria necessário cumprir as etapas profissionais, adquirir experiência de mar e assumir responsabilidades progressivamente maiores.

Depois da formação veio a vida embarcada. No navio-tanque Lorena BR, da Transpetro, Hildelene exerceu as funções de 2º e 1º Oficial de Náutica. Em 2005, chegou a Imediato, tornando-se a primeira brasileira a alcançar aquela posição.

Para quem observa um navio apenas do cais, talvez seja difícil perceber o significado disso. O Imediato não é simplesmente mais um oficial. É o segundo na hierarquia do navio e uma das peças fundamentais de sua operação.

Ainda faltava, entretanto, uma porta.

Ela seria aberta em 28 de setembro de 2009.

Naquele dia, no Píer Mauá, no Rio de Janeiro, Hildelene assumiu o comando do navio Carangola, da Transpetro. Tornava-se a primeira mulher a comandar um navio da Marinha Mercante brasileira. A embarcação, empregada na cabotagem, tinha capacidade da ordem de 18 mil toneladas.

A cerimônia produziu fotografias, discursos e uma notícia que percorreu o país. Depois disso, porém, aconteceu a parte mais importante: o Carangola teve de navegar.

E o mar não faz concessões ao pioneirismo.

A comandante teria de decidir como qualquer comandante. Navegação, meteorologia, carga, segurança, tripulação, operação, horários e imprevistos continuavam existindo exatamente como antes. A responsabilidade final pelo navio estava agora sobre seus ombros.

Talvez seja aí que a história de Hildelene ganhe sua verdadeira dimensão.

Durante seu primeiro embarque, ela havia sido a única mulher do Lorena. Precisou conviver com a desconfiança existente em uma profissão que ainda começava a receber mulheres e também com o receio da própria família diante daquela escolha.

Poucos anos depois, era ela quem ocupava a cadeira do comandante.

A carreira não parou ali. Hildelene alcançou a categoria de Capitão de Longo Curso, o nível mais elevado da carreira de Náutica da Marinha Mercante, e passou também a representar para as gerações seguintes algo que ela própria praticamente não teve quando começou: uma referência feminina que já havia percorrido aquele caminho.

Em 2019, voltou ao ambiente da formação para ministrar a aula inaugural da EFOMM no CIAGA, no Rio de Janeiro. Diante dela estavam 473 alunos. Entre eles, 118 mulheres.

A diferença entre 1997 e aquela sala talvez dissesse mais do que qualquer discurso.

Quando Hildelene entrou na EFOMM, fazia parte de um grupo de apenas 14 pioneiras no CIABA. Duas décadas depois, podia olhar para uma plateia com mais de uma centena de futuras oficiais.

Em 2022, sua trajetória ganhou também dimensão internacional. O Brasil a indicou para exercer a função de Embaixadora Marítima da Boa Vontade da Organização Marítima Internacional, a IMO, missão que desempenhou até o final de 2023.

É tentador resumir sua história dizendo que Hildelene foi “a primeira mulher”.

Mas isso conta apenas metade dela.

O que torna sua trajetória importante não é simplesmente ter chegado primeiro. É ter chegado quando ainda não havia praticamente ninguém à frente mostrando que aquilo era possível.

Hoje, uma jovem pode entrar na EFOMM sabendo que mulheres já chegaram a Capitão de Longo Curso e ao comando de navios brasileiros.

Essa normalidade não existia quando Hildelene começou.

Alguém precisou fazer a primeira viagem.

Categoria: Pessoas, Formação & Vida no Mar

imagem: naval.com.br/blog/2009/10/12/hildelene-lobato-bahia-primeira-mulher-a-comandar-um-navio-mercante/

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