
Em agosto de 2017, o CCMM anunciava em O Sextante uma palestra do CLC Francisco César Gondar sobre “Práticas de Documentação de Bordo”. O tema poderia parecer essencialmente administrativo, mas tocava em uma atividade sem a qual nenhum navio comercial consegue operar normalmente: produzir, conferir e transmitir informações confiáveis entre a embarcação, a empresa, o porto e as autoridades.
Quase dez anos depois, a documentação continua indispensável, mas o ambiente em que ela circula está mudando rapidamente. Formulários, declarações e registros que durante décadas passaram por diferentes mãos estão sendo incorporados a sistemas integrados, e isso começa a modificar também o trabalho das agências marítimas.
O agente marítimo ocupa uma posição peculiar nessa cadeia. Embora muitas vezes permaneça praticamente invisível para quem observa um navio atracado, ele acompanha sua escala antes mesmo da chegada, articula informações com terminais e autoridades, atende às exigências documentais e mantém contato permanente com armador, comandante e diferentes prestadores de serviços.
Uma informação incorreta pode percorrer rapidamente toda essa estrutura. Um dado de carga, tripulação, horário ou característica da embarcação informado de maneira inadequada pode gerar exigências, atrasos e retrabalho. Por isso, digitalizar documentos não significa simplesmente substituir papel por tela; significa modificar a forma como a informação é produzida e compartilhada.
O Porto Sem Papel foi um dos grandes passos brasileiros nessa direção ao concentrar informações necessárias à estadia das embarcações. Em 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos e o Serpro avançaram com o IntegraPSP, que permite a comunicação direta entre sistemas empresariais e a plataforma federal por meio de APIs, reduzindo a redigitação e, consequentemente, o risco de inconsistências.
Outra mudança já começou a aparecer nos portos. O Porto de São Sebastião tornou-se, em agosto de 2026, o primeiro do país a implementar um Port Community System, o PCS. Diferentemente do Porto Sem Papel, voltado principalmente aos dados e documentos relacionados à estadia e às anuências públicas, o PCS pretende integrar uma comunidade muito maior, envolvendo autoridade portuária, terminais, empresas de navegação, agentes marítimos, transportadores, operadores e órgãos públicos.
Na fase inicial, o sistema de São Sebastião já reunia 50 empresas usuárias e havia processado mais de mil transações. O número ainda é pequeno diante da dimensão do sistema portuário brasileiro, mas indica uma transformação importante: informações que antes percorriam caminhos paralelos começam a encontrar um ambiente comum.
Para a agência marítima, isso modifica mais do que a burocracia. Quanto maior a integração entre sistemas, menor tende a ser o valor profissional associado simplesmente à repetição de tarefas administrativas e maior se torna a importância de conferir, interpretar e antecipar problemas. A atividade passa gradualmente da transmissão de documentos para a gestão da informação.
Isso exige outro tipo de atenção. Quando um erro escrito num formulário permanecia restrito àquele documento, sua correção seguia determinado caminho. Num ambiente integrado, um dado inadequado pode ser reproduzido automaticamente por diferentes sistemas. A tecnologia reduz determinados erros humanos, mas também pode aumentar a velocidade com que uma informação errada se espalha.
É nesse aspecto que a antiga discussão sobre documentação promovida pelo CCMM permanece atual. O suporte mudou, a velocidade aumentou e os sistemas passaram a conversar entre si, porém o princípio continua praticamente o mesmo: a qualidade da operação depende da qualidade da informação que a sustenta.
Para os profissionais ligados ao Centro dos Capitães, essa transformação também amplia o significado do conhecimento marítimo. A experiência do comandante continua importante, mas ela se conecta cada vez mais ao trabalho realizado em terra, nas agências, nos terminais, nas autoridades portuárias e nos órgãos que recebem e processam os dados produzidos pelo navio.
O porto conectado não elimina essas relações. Ao contrário, torna cada uma delas mais dependente das demais. Quando informações circulam em tempo real, uma agência marítima deixa de ser apenas um intermediário documental e passa a ocupar posição estratégica dentro de uma rede na qual tempo, precisão e confiabilidade influenciam diretamente a eficiência da escala.
A palestra registrada pelo CCMM em 2017 tratava de práticas documentais num setor que já começava a abandonar o papel. Hoje, a discussão avançou para interoperabilidade, integração automática e compartilhamento de dados. A tecnologia mudou rapidamente, mas a responsabilidade profissional por aquilo que é informado continua exatamente onde sempre esteve.
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