O comandante diante da automação: quando a tecnologia informa, mas não decide

por CCMM

A quantidade de informações disponível no passadiço de um navio moderno seria quase inimaginável para muitos dos comandantes que acompanharam as primeiras décadas do Centro dos Capitães da Marinha Mercante. Nesse período, a navegação passou das cartas de papel e dos métodos tradicionais de posicionamento para radares sofisticados, ARPA, GPS, ECDIS, AIS e sistemas integrados capazes de reunir em poucas telas grande parte da situação do navio.

Entre os integrantes do CCMM estão profissionais formados em diferentes gerações da Marinha Mercante, alguns dos quais começaram a navegar quando muitos dos recursos hoje considerados indispensáveis sequer existiam. Essa convivência oferece uma perspectiva interessante sobre a automação: os equipamentos mudaram profundamente, mas a responsabilidade pela decisão permaneceu no passadiço.

A tecnologia trouxe precisão, velocidade de cálculo e uma capacidade de acompanhamento que os antigos recursos dificilmente poderiam oferecer. Ao mesmo tempo, criou um desafio diferente para o marítimo. Já não se trata apenas de obter informações, mas de selecionar, relacionar e interpretar uma quantidade cada vez maior delas.

Um alvo apresentado no radar pode ter seus movimentos calculados pelo ARPA, enquanto o AIS fornece nome, rumo, velocidade e outros dados transmitidos pela embarcação. O ECDIS acrescenta a posição em relação à derrota planejada, profundidades, perigos e limites de navegação. Cada sistema contribui para formar o quadro, mas nenhum deles, isoladamente, representa tudo aquilo que está acontecendo ao redor do navio.

Por isso, olhar pela janela continua sendo um ato profissional. Não representa resistência à tecnologia nem nostalgia de uma navegação que ficou no passado. Significa confrontar a informação eletrônica com a realidade e manter a percepção do ambiente como parte efetiva da condução do navio.

É justamente nesse aspecto que a experiência reunida no CCMM adquire um valor especial. Muitos de seus comandantes atravessaram diferentes fases dessa transformação, incorporando novos equipamentos ao trabalho sem abandonar princípios de observação, prudência e avaliação das circunstâncias.

Existe, inclusive, um paradoxo interessante. Quanto mais confiáveis se tornam os sistemas, maior pode ser a tendência de aceitá-los sem questionamento. Uma posição extremamente precisa na tela pode transmitir a sensação de que todo o cenário ao redor possui a mesma exatidão, embora as informações utilizadas tenham origens, frequências de atualização e limitações diferentes.

Quem acumulou anos no mar sabe que nem tudo se comporta exatamente como previsto. Vento e corrente podem produzir efeitos diferentes dos esperados, outro navio pode realizar uma manobra inesperada e uma informação aparentemente coerente pode precisar ser comparada com outras antes de orientar uma decisão.

Há nesse processo uma parcela de conhecimento que dificilmente cabe num manual. Ela nasce da observação, das situações enfrentadas, das decisões tomadas e também das conversas entre profissionais. Quando um comandante experiente percebe que alguma coisa “não parece certa”, muitas vezes está recorrendo, mesmo sem perceber, a um repertório construído durante centenas de situações anteriores.

Essa é uma das razões pelas quais a convivência proporcionada pelo CCMM pode ir além do relacionamento entre colegas. Uma conversa sobre determinada manobra, um episódio vivido no passadiço ou uma emergência enfrentada anos atrás pode transmitir conhecimentos que dificilmente seriam encontrados em uma norma técnica.

Para as novas gerações, que chegam aos navios convivendo com a automação desde o início da carreira, esse intercâmbio se torna particularmente valioso. Não se trata de reproduzir métodos antigos, mas de compreender os princípios que continuam válidos mesmo quando os instrumentos utilizados para navegar são outros.

A própria natureza de algumas falhas mudou. Durante muito tempo, um dos grandes problemas da navegação foi conseguir obter informação suficiente e com a rapidez necessária. Hoje, uma ocorrência pode acontecer mesmo quando praticamente todos os dados estavam disponíveis. O problema passa a estar na maneira como foram percebidos, relacionados ou interpretados.

Os alarmes mostram bem essa mudança. Criados para chamar a atenção diante de situações específicas, podem perder eficiência quando aparecem em quantidade excessiva ou passam a ser tratados como parte rotineira do ambiente. Nesse caso, o problema já não é ausência de aviso, mas a capacidade de reconhecer qual deles realmente exige atenção imediata.

Por isso, a formação marítima contemporânea precisa ir além do domínio operacional dos equipamentos. Saber utilizar um ECDIS é indispensável, assim como conhecer os recursos do radar e compreender as informações do AIS. Entretanto, é igualmente necessário reconhecer suas limitações e manter a capacidade de construir uma visão própria da situação.

O comandante não precisa competir com sistemas capazes de calcular mais rapidamente e apresentar dados com enorme precisão. Sua responsabilidade está em outra dimensão: estabelecer prioridades, considerar consequências e decidir quando diferentes informações, embora tecnicamente corretas, não conduzem automaticamente à melhor resposta.

Durante séculos, o marítimo precisou aprender a navegar com pouca informação. Hoje precisa desenvolver também a capacidade de navegar cercado por ela. É uma mudança profunda, porque transfere parte do desafio da obtenção dos dados para sua interpretação.

Ao reunir profissionais que conheceram diferentes etapas dessa transformação, o CCMM preserva uma experiência que pode contribuir para compreender esse novo cenário. Transformá-la em conhecimento acessível às gerações seguintes significa preservar não os antigos instrumentos, mas uma maneira profissional de observar, questionar e decidir.

O passadiço continuará mudando e a automação certamente ocupará novos espaços. Ainda assim, haverá situações em que os sistemas apresentarão dados, possibilidades e alertas sem fornecer uma resposta pronta para aquilo que precisa ser feito. É nesse momento que a experiência deixa de ser memória do passado e volta a ser instrumento de navegação.

imagem: divulgação Praticagem Brasil

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