
Quando um porto recebe equipamentos mais modernos, um rebocador mais potente entra em operação ou uma nova tecnologia passa a auxiliar determinada manobra, é comum dizer que houve um “aumento da segurança”. A expressão parece absolutamente natural, mas contém uma ideia que merece ser discutida: se uma operação somente se tornou segura depois da chegada daquele recurso, em que condições ela era realizada antes?
A questão foi levantada pela Capitã de Longo Curso Fabiana Durant, representante do Centro dos Capitães da Marinha Mercante, durante um debate sobre a interação entre portos e rebocadores. Ao tratar do assunto, ela chamou atenção para um princípio aparentemente simples, mas fundamental: segurança não deve ser entendida como algo que pode existir em maior ou menor quantidade conforme os recursos disponíveis. Para uma manobra ser autorizada e executada, ela precisa ser segura desde o início.
Isso não significa que tecnologia, rebocadores mais eficientes, sistemas de posicionamento, sensores, informações meteorológicas mais precisas ou melhores recursos de comunicação não façam diferença. Fazem, e muita. O ponto está em compreender exatamente o que eles modificam.
Quando novas ferramentas são incorporadas à operação, elas podem permitir que determinadas restrições sejam revistas. Um navio maior pode passar a operar em certo terminal, determinadas condições ambientais podem deixar de impedir uma manobra ou um procedimento que anteriormente exigia limitações específicas pode ser realizado de outra maneira. A tecnologia amplia possibilidades, mas isso não deveria significar que antes se aceitava trabalhar abaixo de um nível adequado de segurança.
Essa distinção é importante porque o ambiente portuário reúne variáveis que mudam continuamente. Corrente, vento, profundidade, dimensões do navio, potência disponível nos rebocadores, configuração do terminal e características da área de evolução fazem parte de uma equação que precisa ser analisada para cada operação. Não existe recurso tecnológico capaz de eliminar essa necessidade de julgamento.
É justamente nesse ponto que a experiência profissional continua tendo enorme importância. Sistemas fornecem informações cada vez melhores e equipamentos permitem executar ações que seriam muito mais difíceis algumas décadas atrás, mas alguém ainda precisa compreender o conjunto, avaliar os limites e decidir se as condições permitem realizar a manobra.
Também é necessário evitar uma consequência perigosa da própria evolução tecnológica: a sensação de que equipamentos mais sofisticados permitem compensar indefinidamente condições desfavoráveis. Quanto maior a capacidade de um sistema, maior pode ser a tentação de avançar um pouco mais sobre os limites anteriormente estabelecidos.
Por isso, tecnologia e segurança não deveriam ser colocadas numa relação automática. Um recurso novo pode aumentar a precisão, melhorar a informação disponível, reduzir determinadas incertezas e oferecer maior capacidade de controle, mas sua utilização precisa ser incorporada a procedimentos, treinamento e critérios operacionais igualmente consistentes.
O exemplo dos rebocadores ajuda a compreender essa relação. O desenvolvimento dos sistemas de propulsão e das diferentes configurações de operação ampliou significativamente a capacidade de assistência aos navios. Entretanto, potência nominal, isoladamente, não explica a eficácia de um rebocador em determinada situação. A forma como essa força é aplicada, a posição do rebocador, o método de emprego, as características do navio assistido e as condições locais também interferem no resultado.
Durante o mesmo debate em que Fabiana Durant tratou da interação entre porto e rebocadores, foram discutidos os certificados de tração estática e a necessidade de aperfeiçoar procedimentos relacionados aos ensaios e aos seus registros. Isso mostra como a segurança depende não apenas da existência do equipamento, mas também da confiança nas informações utilizadas para avaliar sua capacidade.
Há, portanto, uma diferença importante entre possuir recursos e saber exatamente o que eles permitem fazer. Um equipamento pode ampliar a capacidade operacional de um porto, mas essa ampliação somente se transforma em benefício quando seus limites são conhecidos e respeitados.
Esse raciocínio vale muito além dos rebocadores. Está presente no passadiço, na praça de máquinas, nos sistemas de posicionamento dinâmico, na navegação eletrônica e em praticamente todos os ambientes onde a automação passou a participar das decisões de bordo.
Quanto mais sofisticado o recurso, maior precisa ser a compreensão sobre aquilo que ele efetivamente faz e, principalmente, sobre aquilo que ele não pode fazer.
Talvez seja justamente essa a contribuição mais interessante da reflexão apresentada pela CLC Fabiana Durant. Em vez de imaginar a segurança como uma escala que sobe à medida que novos equipamentos chegam, podemos entendê-la como uma condição necessária para que qualquer operação aconteça.
A tecnologia pode ampliar limites, retirar restrições e oferecer novas possibilidades. A experiência pode melhorar decisões e permitir uma leitura mais completa das circunstâncias. Os procedimentos podem organizar a maneira como tudo isso será utilizado.
Mas a segurança não deveria aparecer no final dessa equação como um benefício adicional.
Ela precisa estar presente antes que a primeira espia seja largada.
imagem: divulgação Praticagem Brasil